NÃO DEIXAR RASTROS

O ecoturismo e o turismo de aventura estão em voga. Cada vez mais pessoas se divertem no “agreste”, como diz Sérgio Beck. No entanto, devemos nos atentar para o impacto ambiental que nós causamos. Mesmo situações consideradas de mínimo impacto podem gerar consequências desastrosas quando ocorrem repetidamente. Os sinais deste impacto são bem perceptíveis: lixo, restos de fogueiras, locais de acampamento pisoteados e animais acostumados com pessoas são indicadores de perturbação humana no ambiente selvagem. Técnicas para minimizar o impacto social e ambiental dos visitantes de áreas florestais foram desenvolvidas pelos educadores do programa Leave No Trace (que pode ser traduzido como ‘não deixar rastros’). Estes métodos foram resumidos em 7 princípios para se manter o máximo dessa filosofia de ética ao ar livre.

1 – Planeje com antecedência e prepare-se.
a) Conheça os regulamentos e considerações especiais do local que você irá visitar.
b) Prepare-se para mudanças climáticas, riscos e emergências.
c) Agende sua viagem de modo a evitar épocas de grande movimentação.
d) Visite em grupos pequenos. Divida grupos grandes em grupos de 4 a 6 pessoas.
e) Empacote novamente a comida que sobrar para minimizar resíduos.
f) Use mapas e bússola para eliminar o uso de tinta de marcar, cairns, tiras ou embandeiramentos (todos usados para marcação de trilhas).

2 – Percorra e acampe em superfícies duráveis.
a) Superfícies duráveis incluem trilhas e locais de acampamento pré-estabelecidos, rocha, pedras, cascalho, grama seca e neve, sendo que o solo hidromórfico (encharcado) deve ser evitado a todo custo.
b) Proteja áreas praianas e marginais acampando pelo menos a 60 metros de distância de lagos e rios.
c) Bons locais de acampamentos devem ser achados, não feitos. Alterar um local não é necessário.
d) Em áreas populares:
I) Concentre-se em usar trilhas e locais de acampamento pré-existentes.
II) Caminhe em fila indiana única no meio da trilha, mesmo que esteja molhada ou lamacenta.
III) Mantenha o local de acampamento pequeno. Foque a atividade em áreas de pouca vegetação.
e) Em áreas selvagens pouco ou quase nunca visitadas:
I) Disperse o uso para evitar a criação de locais de acampamento ou trilhas.
II) Evite áreas onde o impacto esteja começando a ser percebido.

3 – Disponha dejetos propriamente.
a) Leve tudo o que trouxe. Inspecione seu local de acampamento e áreas de descanso e bivaque procurando por lixo e comida que tenha eventualmente caído. Empacote de volta todo o lixo, sobras de comida e detritos.
b) Deposite dejetos humanos sólidos em buracos de 15 a 20 cm de profundidade e pelo menos 60 metros distante de qualquer corpo d’água. Cubra e disfarce o buraco quando terminar.
c) Leve de volta todo o seu papel higiênico, fio dental e outros produtos de higiene pessoal e coletivo.
d) Para lavar-se e aos pratos e panelas, leve água para no mínimo 60 metros de distância de lagos e rios e use pequenas quantidades de sabão biodegradável. Disperse a água usada.

4 – Deixe tudo como encontrou.
a) Preserve o passado: examine, mas não toque em estruturas ou artefatos culturais ou históricos.
b) Deixe pedras, plantas e outros objetos naturais da forma que você encontrou.
c) Evite transportar ou introduzir espécies animais e vegetais não nativas.
d) Não construa estruturas, mobília ou cave trincheiras ou valas.

5 – Minimize o impacto de fogueiras.
a) Fogueiras podem causar estragos permanentes no agreste.
b) Use um fogareiro leve para cozinhar e aproveite a luz de uma lanterna a pilhas ou velas como iluminação.
c) Em locais onde fogueiras forem permitidas, use locais de fogueira pré-estabelecidos, aterros ou plataformas de ferro (fire-pans).
d) Mantenha fogueiras pequenas. Somente use gravetos que você possa quebrar com as mãos.
e) Queime toda a madeira e carvão até as cinzas, desfaça a fogueira completamente e enterre ou disperse as cinzas frias.

6 – Respeite a vida selvagem.
a) Observe a vida selvagem à distância. Não siga ou se aproxime de animais.
b) Nunca alimente os animais. Alimentar os animais prejudica sua saúde, altera seu comportamento natural, e os expõe a predadores e outros perigos.
c) Proteja a vida selvagem e sua comida armazenando lixo e provisões de forma segura.
d) Evite contato com a vida selvagem em épocas sensíveis: acasalamento, aninhamento e choca, crescimento de filhotes ou inverno, em caso de hibernações.
e) Caso leve animais de estimação, controle-os em tempo integral. Recolha também todos os seus dejetos.

7 – Leve em consideração os outros visitantes.
a) Respeite outros visitantes e proteja a qualidade da experiência deles.
b) Seja cortês. Cumprimente e ceda passagem para outros praticantes.
c) Coloque-se na parte baixa da trilha quando cruzar com animais de carga.
d) Não se misture a outros grupos para minimizar o impacto e acampe afastado de trilhas e de outros visitantes.
e) Deixe que os sons naturais prevaleçam. Evite voz alta e barulho.

Minhas considerações: A melhor forma de organizar a cozinha é em forma de arco, com o fogareiro à sua frente, e os outros objetos postos lado a lado, ao alcance da mão. O combustível deve e ficar bem atrás do cozinheiro(a) para evitar contaminação e incêndio, e nada deve ser colocado além do fogareiro, para evitar queimadura se alguém tentar alcançar algo por cima dele. Em locais com aparecimento frequente de animais, também é bom que a cozinha fique a uns 100 m do local das barracas, a favor do vento em relação a estas, e distante outros 100 m da cozinha e das barracas, formando um triângulo em relação a estas, deve ficar o armazenamento de suprimentos, de preferência numa bolsa fechada pendurada em uma árvore por um cordelete, fora de alcance de animais. O ato de não deixar marcas da cozinha de acampamento começa antes de você sair de casa. Parte da preparação e do planejamento envolve reempacotar sua comida para minimizar lixo em potencial, assim como para diminuir o peso que você vai carregar. Com um planejamento apropriado de refeições e cozinhar com cuidado (quer dizer, não queimar a comida), você pode eliminar a maioria das sobras. Mas, caso você acabe com comida pronta de sobra, seja ponderado e coma-a em outra refeição, ou leve-a embora com você. Não cave um buraco ou faça uma fogueira para dispensar sobras de cozinha ou material não inflamável como papel alumínio. O lixo não tem lugar no agreste. Carregue de volta o que você trouxe, inclusive papel higiênico. Algumas sobras, como água que sobrou de um cozimento e de lavar panelas, não podem ser levadas de volta. Esta água deve ser dispersada amplamente, no mínimo 60 metros longe de qualquer fonte de água e de locais de acampamento. Remova todas as partículas de comida da água antes de dispensá-la (uma pequena peneira é útil para isso), e empacote-as com o seu lixo. Uma exceção a isso são entranhas de peixes, que podem ser fontes de doenças se forem carregadas com você, e podem ser jogadas de volta nos rios, de preferência em águas profundas e bem movimentadas. Uma forma de aproveitar a água do cozimento do macarrão, é usando-a para fazer sopa instantânea de caneco, à venda em supermercados em pacotes individuais.
Em locais de pesca, informe-se com os moradores ou controladores locais sobre os procedimentos adotados.
E lembre-se: Peça permissão para pescar em propriedade privada.

Use somente sabão biodegradável e, de preferência, apenas para tomar banho e lavar as mãos antes de preparar a comida. As panelas e utensílios de cozinha podem ser limpas com aeradores ou escovas naturais, como areia, pinhas, tufos de grama, barro, e neve, e depois enxágue bem os utensílios, e jogue água fervente neles antes de utilizá-los. Com esse método, quase nenhuma água com sabão é deixada no meio ambiente, e também evita dores de estômago causadas por restos de sabão em panelas. De qualquer forma, se você quiser usar sabão para lavar seus utensílios, use um sabão biodegradável.

Alguns ambientes naturais como cavernas e alguns cânions têm ecossistemas extremamente delicados. Nesse caso até os dejetos humanos sólidos e líquidos devem ser levados de volta, principalmente em locais de visitação frequente. No caso de cavernas com pouca visitação, faça o buraco para dejetos sólidos longe da entrada da caverna. A urina pode ser levada em garrafas PET. No caso das mulheres, absorventes higiênicos e tampões também devem ser levados de volta, pois são tão poluentes quanto fraldas descartáveis. As mulheres também podem utilizar um tipo de funil chamado “Freshnette” para urinar em pé e recolher o xixi na garrafa PET. Em cavernas o sistema de iluminação mais usado é o alimentado por carbureto. Um pequeno botijão tem dois recipientes, um de água, mais acima, e um de carbureto, abaixo. A água goteja no carbureto e entra em reação com ele produzindo um gás que alimenta a chama da iluminação. Sobra uma borra do carbureto que não pode ser deixado na caverna, tem que ser levado de volta, assim como todos os dejetos.
Segundo Sérgio Beck, o ideal seria que até as fezes fossem levadas de volta, não só de cavernas, mas de qualquer lugar, em sacos não transparentes e que não permitem que o odor saia, caso em que você terá que improvisar, pois eu ainda não conheço nenhum apetrecho que seja vendido para tal. Caso não seja possível, ele explica que, após defecar no buraco cavado, as fezes devem ser desmanchadas com um graveto, que também será enterrado junto, desfazendo a película de muco que retarda a decomposição das fezes. Após enterrar, disfarce o local. Em caso de vias longas de escalada em rocha, de mais de um dia, os escaladores devem levar o “Shit-tube”, um tubo de PVC fechado em baixo e com uma tampa de rosca em cima que deve ser pendurado abaixo dos escaladores, possibilitando que estes puxem o “tubo de merda” quando precisarem utilizá-lo, e, claro, um por pessoa.
É muito comum que em época de chuva os excursionistas cavem valas em volta das barracas para evitar alagamento. Não faça isso, ou pelo menos evite. Essa valas podem causar erosão. Planeje bem sua excursão e leve uma barraca apropriada para o clima a que você for se sujeitar, ou seja, que aguente uma coluna d’água condizente. Caso seja obrigado a fazer uma dessas valas, depois cubra-as com terra e pedriscos. Existem exceções, é claro, principalmente em caso de emergências.

Glossário:
Cairn: termo castelhano para definir o promontório ou monte de pedras destinado a sinalizar percursos e trilhas em média e alta montanha. Também são conhecidos por hitos ou totens.
Bivaque: abrigo improvisado ao relento.

Mais informações:
http://www.lnt.org – Leave No Trace.
http://www.aventurajah.com.br – Sérgio Beck.
http://www.jadeandpearl.com/catalog/index.php – Tampão reutilizável de esponjas do mar – “Sea Pearl”.
http://www.coisasdemulher.com.br/abio.htm – Absorventes reutilizáveis feitos por Diana Hirsch.
http://www.nols.org – National Outdoor Leadership School (Escola Nacional de Liderança ao Ar Livre).
http://www.rei.com – Freshnette – dispositivo de plástico reutilizável que permite à mulher urinar em pé, em lugares de pouca higiene ou mesmo em atividades ao ar livre.
http://www.geocities.com/leberns/detergente-ecologico-rece.html – receita caseira de sabão biodegradável de menor impacto.

Bibliografia recomendada:
BECK, Sérgio. O Livro de Aventura do Excursionista Decidido. Disponível no site.
BECK, Sérgio. Ratos de caverna. Disponível no site.
BECK, Sérgio. Convite à Aventura. Disponível no site.
MEYER, Kathleen. Cómo Cagar en el Monte. 4ª edición. Madrid: Ediciónes Desnível. 2001.
MACMANERS, Hugh. Manual Terra de Vida ao Ar Livre. 1ª edição. São paulo: Revista Terra/Editora Abril. 1995.
PEARSON, Claudia (Editor). NOLS Cookery. 5th edition. Mechanicsburg: Stackpole Books. 2004.

Texto: Rodrigo Bulhões

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